Nos sentimos no auge de nossa civilização. Se deslocar de um lugar a outro é fácil, tratar doenças não é lá uma grande dificuldade. Temos a ligeira impressão de que somos independentes um dos outros, afinal, temos nosso próprio trabalho e nosso próprio dinheiro, então tudo que preciso, eu compro. Já faz alguns séculos que o aumento de capital circulando desenvolveu novas formas de ganhar dinheiro e de se ganhar a vida, o que levou a uma gradativa diversificação do trabalho. Não mais seguimos o ramo da família, afinal preciso ter minha própria “identidade”! Formas diferentes de se ganhar a vida levaram a formas competitivas. Surge uma nova expressão em nosso universo lingüístico: “eu sou bem sucedido”.
Agora já não mais se pensa em “nós” sermos bem sucedidos, em nossa comunidade ou nossa família prosperar, mas sim no “eu”. “Eu” me tornei o gerente do meu setor, “eu” fui funcionário do ano, “eu” fiz meu MBA em Harvard. Cria-se uma ilusão de que somos autônomos, de que não precisamos do outro. Afinal, eu ganho meu excelente salário e posso comprar o que preciso. Mas as pessoas se esquecem de como as relações sociais continuam entrelaçadas. Você ainda precisa do que é produzido por um fazendeiro para comer, e se ele parar de produzir, então vá comer capim ora. Sou independente porque posso pagar meu plano de saúde, mas se um dia os médicos resolverem parar de atender porque acham as taxas dos planos muito baixas (ocorreu algo semelhante, mas pararam apenas na rede pública), então aceite seu câncer, pois você morrerá com ele. É uma falsa sensação de autonomia que não permite que enxerguemos a complexidade das relações sociais, e assim nos distanciamos dos outros. A realidade é uma distância, não autonomia, porque ainda dependemos, apenas tentamos desesperadamente nos afastar dessa dependência. Esse desespero leva a muito sofrimento. Tenho que fazer muitos sacrifícios para me mostrar independente, me afastar das pessoas que amo, esquecer o que me dá prazer.
Qual a utilidade de se pensar em “nós”, afinal, você tem um objetivo diferente do meu, então se formos expor nossas idéias, muito provavelmente pensaremos diferente e nos poremos um no caminho do outro. Não posso chegar a conclusões através de um debate com você, pois apenas seremos divergentes. E então que surge a cartada final contra a humanidade, a auto-reflexão. A noção de mundo interno já existe há muito tempo, mas agora nós nos trancamos dentro dele. Acreditamos que só podemos conhecer algo refletindo sozinho, só podemos tomar decisões calados em nosso canto pensando. Para que ouvir aos outros? E assim somos dominados por pensamentos e sentimentos. Deixamos nossas ações serem comandadas pela forma como estamos nos sentindo, e na estúpida ilusão que isso só tem a ver com a gente e nada com as outras pessoas ao nosso redor, nos isolamos. E já que o problema está dentro de nós, realmente não cabe discutir com os outros sobre isso. E até algumas tentativas de se discutir são extremamente mal-sucedidas, pois as pessoas já entram na conversa sem nenhuma flexibilidade. Afinal, quando não mais acreditamos que o debate leva a algum conhecimento, o que resta é tentar convencer o outro de que minha opinião é que conta, o que faz nascer a mentira.
Nos afastamos de uma vida em comunidade plena, pois nos recusamos a enxergar os entrelaçamentos que percorrem uma estrutura social complexa, e assim nos escondemos atrás de mitos como a autonomia, o mundo interior, a liberdade de escolha advinda da auto-reflexão e por fim, a prisão em nossos pensamentos e sentimentos, e deixando de lado diálogo, conhecimento através de debate Como resultado dessa sopa, desses mitos que advém da falta de diálogo e do desconhecimento da dependência ao outro, temos apenas o último sentimento que sobre à nós, a solidão.
O mais estranho é que depois que os caminhos da civilização nos levou a um isolamento, agora tenta nos agrupar, mas de maneira forçada. Somos classificados por nossos comportamentos, nossas doenças, nossos medos e nossos desejos. Tenta-se desesperadamente se aglomerar em grupos, mas sem saber uma real utilidade disso. Quero me enturmar mas não vejo tanto sentido assim, já que não vão me acresentar muito, pois eu que sei minha verdade. Eu e minha prisão de sentimentos.
Eu sou minha verdade.
Eu sou minha droga.
Eu sou meu mundo.
Me deixe em paz.
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