Há um indeterminado tempo atrás um trem partiu. Os passageiros encontravam-se contentes com seu caminho, os drinks estavam sendo servidos e todos sentavam quietos e domados em suas poltronas. A caldeira funcionava com pequena capacidade, pouco carvão havia sido colocado. Mas mesmo com pouca velocidade o trem chega longe e os passageiros se satisfazem com o tempo.
Porém o trem não para. Quando os passageiros percebem que o novo destino implica em esquecimento de seu ponto de origem, e mais que seu próprio ponto de origem não espera que os passageiros voltem, eles percebem que de nada adianta se fixar no seu destino. Então como fazer para não ter destino? Simples, mantenha o trem em locomoção. E o maquinista prontamente coloca mais combustível na caldeira.
No início a velocidade de movimento era suficiente para os passageiros, mas aquilo começou a ficar entediante. Se for pra ficar nesse trem, vamos tornar isso mais emocionante. Então alguém do vagão 3 sugeriu que se colocasse mais combustível. O sentimento de velocidade foi ovacionado. Todos quiseram mais! E foram atendidos.
De tempos em tempos mais combustível foi sendo colocado na caldeira, e mais rápido o trem se deslocava. No meio período foi percebido que alguns passageiros não conseguiam suportar o novo ritmo, e seus corpos começaram a falhar. Algumas paradas cardíacas e corpos jogados para fora do trem depois, aqueles com maior resistência sobravam, e resolveram honrar aqueles que ficaram no caminho. Afinal, mesmo em seu leito de morte, cada um deles pedia mais combustível na caldeira. A velocidade era viciante.
Depois de algum tempo, não mais conseguiam identificar em qual parte da linha estavam, para falar a verdade, nem se ao menos estavam na linha. O trem pareceu que desenvolveu sua própria linha para seguir, assim não se preocuparia com outros trens.
Um dia o maquinista, em um teste regular dos sistemas do trem, foi verificar a situação dos freios. Para sua surpresa, eles não mais funcionavam. Já estavam a tanto tempo em desuso que se enfurrujaram e perderam sua capacidade de para a locomotiva. Alguns dizem que o óleo do freio foi deixado no ponto de origem, e que as pessoas daquele lugar também nem ao menos se preocuparam em enviá-lo.
Essa é uma história inconcluída, mas agora temos um trem sem rumo e sem freios, se locomovendo em uma alta velocidade. Sabemos que seus passageiros não durarão para sempre, o que inclui também o maquinista. Como os contatos com os passageiros já não mais são possíveis, vamos esperar o maquinista morrer para eles pararem e relatarem seu caso. Isso pode até custar um pouco, mas talvez não.
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